Aqui mesmo, nove anos depois, persisto: a questão da persistência é a questão moderna da arte. Quer isto dizer que onome «persistência» continua a prestar-se para abordar o que nos está a acontecer desde o advento da modernidade.
Pois «moderno» é o pensamento do resto (da arte) que se separa da política e da religião – e que, ao separar-se, mostra aarte a si mesma, ou seja, mostra-nos a totalidade da arte. Se a arte existe desde a Pré-história ou, segundo uma outra história,desde os Gregos, o facto é que um tal resto que comunica com toda a arte só se revelou abertamente na era moderna. Daí aextraordinária e abundante experimentação sobre o limite da arte (ouda representação) que, pelo menos desde o primeiro Romantismo,atravessou todos os modos de expressão ou géneros artísticos. A persistência diz isso mesmo em todas as letras: o que atravessa (per-) ahistória é o resto, e o que insiste é o todo da arte – a integralidade dasformas que voltam até nós a partir de um tal resto. Se isto for compreendido, não haverá necessidade de forjar qualquer pós-modernidade ou, inversamente, sustentar um regresso nostálgico aos tempospré-modernos.
[…]Por ocasião da presente edição deste primeiro volume de Persistência da Obra, dedicado à relação entre arte e política (volume que sepublica pela primeira vez em bilingue, aquando da publicação do segundo volume), proponho um texto inédito – «Igualdade da arte» –que procura apresentar uma tese na sequência da «Introdução» anteriormente escrita (inflectindo, como se poderá notar, o teor desta).Foram igualmente introduzidas pequenas correcções em todo o volume, bem como, no frontispício, uma reprodução de uma obra deClaudio Parmiggiani: um ovo (em mármore branco) encravado entreduas rochas altas no meio de uma floresta. A graça de uma tal peça parece condensar a fragilidade de qualquer criação: das mais estritas condições materiais surge, brotando ou caindo, a promessa de um novoser. Talvez a arte seja apenas isso – a declaração do nosso nascimento.Sempre suspenso sobre um abismo.
[Tomás Maia]| ISBN | 9789899006638 |
|---|---|
| Ano | 2020 |
| Número de páginas | 280 |
| Capa | Brochada |
| Editora | Documenta |
| Categorias |
Livros > Artes > Arte
Boyan Manchev
Nasceu em Sofia, em 1970. Filósofo e escritor, é autor vários livros e de numerosas publicações em diversas línguas. Começou a ensinar na Universidade de Sofia em 1997. É professor de Filosofia na Nova Universidade búlgara (desde 2001) e professor convidado na Universidade de Artes em Berlim (desde 2010) e na Universidade Hollins (desde 2014). Foi vice-presidente do Collège international de philosophie de Paris, onde dirigiu o programa «Métamorphoses de la communauté. Vers une ontologie modale» (2004-2010), e professor no HZT – UdK Berlin (2011-2017). Proferiu numerosas conferências em diversas universidades europeias, americanas e asiáticas, e em instituições culturais. É membro dos conselhos de redacção das revistas Lignes (Paris), Crítica e humanismo (Sofia), Materiali Foucaultiani (Rome/Paris ) e Stasis (São Petersburgo). É membro fundador do grupo artístico e editorial «Metheor». Colaborou — como autor, teórico, dramaturgo, actor ou comissário de exposição — em projectos visuais, de teatro, de cinema e de dança contemporânea. A exigência de novas formas filosóficas, éticas e políticas tem orientado o seu trabalho ao longo dos anos.
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